Dimba: Atrapalhadas do Flamengo do “Velho Testamento”

O futebol brasileiro sempre foi palco de histórias curiosas, decisões polêmicas e, acima de tudo, muita paixão. Porém, há momentos em que a gestão fora das quatro linhas acaba ofuscando o espetáculo, criando episódios que marcam não apenas a torcida, mas também o ambiente dos clubes. Um desses casos emblemáticos é a controversa contratação de Dimba pelo Flamengo, em um dos períodos mais conturbados da história recente do clube.

Troca de comando e ambiente instável

Durante o turbilhão de 2004, o Flamengo também viu mudanças na sua comissão técnica. O ídolo Júnior era constantemente cobrado em meio à crise. Ao lado de jogadores como Júlio César e Zinho, Abel foi responsável por ajustar o time, promovendo jovens talentos e segurando a barra nos piores momentos.

O elenco, repleto de nomes que mais tarde fariam história, era movido pela vontade de superar as adversidades, mesmo diante de salários atrasados, falta de estrutura e problemas internos. Em um clube como o Flamengo, tudo ganha proporções gigantescas. Uma fala mal interpretada, um gesto exagerado, uma decisão administrativa duvidosa – tudo vira manchete. Os problemas aumentaram ainda mais após o Flamengo perder o título da Copa do Brasil de 2004 para o modesto Santo André, algo que encerrou a primeira trajetória Abel Braga no rubro-negro carioca.

A contratação de Dimba ocorreu após a Copa do Brasil e foi amplamente debatida nos programas esportivos, com opiniões divididas entre os analistas. O próprio atleta preferiu se preservar, não dando margem para polêmicas públicas. Ainda assim, o caso serviu de lição para futuras administrações, mostrando que o futebol vai muito além das quatro linhas: é preciso respeitar o ambiente, valorizar o grupo e manter uma comunicação clara para evitar ruídos e crises desnecessárias.

Salários atrasados, grupo insatisfeito e um milhão para Dimba

Imagine um time tradicional como o Flamengo, em crise financeira, com salários atrasados e o elenco atravessando um dos momentos mais difíceis de sua história. Nesse cenário, a diretoria decide contratar Dimba e, para surpresa de todos, adianta logo de cara um milhão de reais ao novo reforço. O problema não foi apenas a chegada do jogador, mas a disparidade escancarada diante dos demais atletas, que aguardavam meses para receber seus vencimentos.

Foto: Reprodução/TV Brasil

Essa decisão escancarou o distanciamento entre direção e elenco, causando indignação e desconforto. Como manter um grupo motivado sabendo que, enquanto a maioria enfrenta dificuldades, um novo nome recebe um valor astronômico antecipado? Muitos jogadores sequer conheciam Dimba pessoalmente, e a imprensa fez questão de noticiar o pagamento antecipado, aumentando ainda mais o clima de instabilidade.
“Geral com salário atrasado e o Dimba recebendo antecipado. Era visível o constrangimento”, comentou um ex-jogador, relembrando o ambiente no vestiário.

Uma das piores contratações da história recente do clube

A contratação de Dimba não se justificava nem do ponto de vista técnico, muito menos do ponto de vista da gestão de grupo. Embora todo jogador mereça respeito, a diferença gritante de tratamento era motivo para desconforto.

Dimba era conhecido no cenário nacional, mas estava longe de ser unanimidade. Em campo, sua atuação não correspondeu ao investimento, e a própria torcida estranhou a chegada do atleta em um momento em que o time precisava mais de estabilidade do que de apostas arriscadas. O resultado? Uma das contratações mais criticadas da década, com reflexos imediatos dentro e fora de campo.

Segundo muitos atletas da época, o próprio Dimba se mantinha mais reservado, evitando se misturar no grupo, o que aumentava a sensação de isolamento e de que não fazia parte, de fato, daquele elenco. A falta de identificação foi um dos fatores determinantes para que o investimento nunca se pagasse, tornando-se símbolo de uma administração desastrada.

O contexto da época: elenco desacreditado e pressão pela permanência

O início dos anos 2000 foi de reconstrução para o Flamengo. Em 2004, o clube entrou em campo já desacreditado, com uma base formada e grandes rivais favoritos ao título estadual – Edmundo e Romário pelo Fluminense, Roger, Ramon, e um ambiente de competitividade alto no Rio de Janeiro. Apesar disso, o Flamengo surpreendeu, chegando forte à semifinal e fazendo jogos épicos, como o memorável Fla-Flu de sete gols durante o Carnaval, que até hoje está na memória do torcedor.

Foto: Reprodução/Lancepress

No entanto, a disputa interna continuava pesada. A chegada de Dimba, em meio a tantos problemas, foi um divisor de águas negativo. O elenco, já pressionado, não encontrou respaldo na diretoria. A crise se arrastou até a reta final do campeonato, quando o Flamengo lutou até a última rodada para evitar o rebaixamento – uma situação inimaginável para um clube de tamanha tradição.

Jogo decisivo: a batalha contra o Cruzeiro

No meio de toda essa turbulência, um jogo contra o Cruzeiro ficou marcado na memória dos torcedores e dos jogadores. Era a última chance, a “batalha final” para garantir a permanência na elite do futebol brasileiro. O clima era de tensão máxima, com o elenco sentindo o peso da camisa e da responsabilidade.

O gol salvador veio em uma jogada construída com raça e talento, e a comemoração – com a tradicional camisa sendo jogada ao alto – não foi protesto, mas sim um verdadeiro desabafo de quem estava sobrecarregado pela pressão de evitar o pior. Muitos interpretaram o gesto de formas diferentes, mas quem esteve naquele elenco entende bem o significado: era alívio, não revolta.

“Não foi gol qualquer. Se eu tivesse 50 gols na carreira seria muito, mas aquele ali foi como cesta de basquete, redonda, certeira, sem chance para o goleiro.”

Enfim…

A contratação de Dimba pelo Flamengo é um exemplo clássico de como decisões administrativas equivocadas podem gerar impactos negativos no ambiente esportivo. Mais do que uma contratação polêmica, esse episódio demonstra a necessidade de respeito, transparência e união em momentos de crise. No futebol, como na vida, nem sempre a solução está em uma estrela isolada, mas na força de um grupo comprometido. O próprio Dimba, após passagem apagada pelo Flamengo, seguiu novos rumos, enquanto o Flamengo, gradativamente, buscava sua recuperação esportiva e financeira.

Renato Machado
Renato Machado
Rubro-negro, pai de dois filhos maravilhosos, formado em Publicidade e Propaganda, empreendedor na área comercial, apreciador de bons livros e escritor nas horas vagas. Tenho o propósito de conectar os leitores com a essência do Flamengo, compartilhando as alegrias de uma vitória, explorando os bastidores do clube e analisando as nuances do time. Caso tenha gostado do conteúdo, considere seguir meu canal na Twitch e acompanhar as lives que faço por lá.
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